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Desde
os primórdios da humanidade, o homem busca de alguma forma traduzir através
de ritos, a sua percepção da existência à priori de algo maior do que
ele mesmo e que o transcende. A princípio, esse contato não era necessário
ser buscado nos céus, pois ele era como uma continuação da divindade em
si, ou uma de suas manifestações. Era tempo de unidade, e o homem não
se sentia como uma personalidade autônoma e independente da fonte da qual
proveio.
Com
o passar do tempo, ao entender-se como uma personalidade individual, surge
a noção do eu e do outro, uma pseudo autonomia que o leva a efetuar mais
e mais projeções e a cada vez mais separar-se de sua fonte original.
E
para que possa acercar-se dessa fonte, ele busca nas diversas religiões, uma
maneira de sair do tempo profano, cronológico, no qual ora vive, para por
instantes, voltar às origens, ao tempo forte, transfigurado pela presença
ativa e criadora dos entes sobrenaturais.
Com seus ritos, o homem reintegra-se àquele tempo fabuloso que
sente perdido, e encontra nas diversas religiões o suporte necessário
para buscar se conectar a Deus.
Lamentavelmente, nem sempre como algo que
por si só também transcende às máscaras adotadas por essa ou aquela
linha religiosa.
¨Deus
pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares – como uma melodia e
sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele surja, o
impacto de sua presença é o mesmo: ele não é reduzido pela multiplicação.”1
( grifo nosso)
Para se entender o fator religio como a
sociedade, nos moldes em que a vivemos, busca impor a cada um de nós, teríamos
que entende-la também baixo os conceitos e princípios norteadores da época
em que surgiu, e sua manutenção, como uma perpetuação desses mesmos
princípios pelas sociedades que as sustentam.
Nós do Meio do Céu, entendemos o
fator religiosidade como algo inerente a todo ser humano, como uma busca
de centralização, um arquétipo de organização espiritual que procura
nos retirar do caos lançado pela separação entre consciente e
inconsciente, para nos conectar com a transcendência de nossa humanidade,
com algo maior, estando nosso espírito dessa forma, servindo-se de cada
uma delas apenas na medida em que sua função seria a de buscar sua evolução,
necessitando-se para isso tanto de nosso corpo material como de nosso
fator religioso interno.
Entendemos
portanto, que a tomada de consciência passaria por vivenciarmos também
internamente cada um dos estágios vivenciados por nossos antepassados,
aqueles que nos antecederam.
“No
curso de seu desenvolvimento ontogenético, a consciência individual do
ego tem que passar pelos mesmos estágios arquetípicos que determinaram a
evolução da consciência na vida da humanidade. Na sua própria vida, o
indivíduo tem que seguir a estrada percorrida antes dele pela própria
humanidade, estrada na qual essa deixou marcas impressas da sua jornada”2
Jung sustenta que o telos maturacional da psique humana existe no
sentido de um estado de consciência no qual o indivíduo tende a
aproximar-se progressivamente de uma fonte interior, fonte essa ao mesmo
tempo de toda a consciência e, assim, de qualquer significado presente no
universo.
“Creio,
pois, que, no geral, a energia psíquica ou libido cria a imagem de Deus,
valendo-se dos modelos arquetípicos, e que o homem, por consequência,
venera a força psíquica do seu interior como algo divino”3
Partindo desse pressuposto, o símbolo revela certos
aspectos da realidade, os mais profundos, que desafiam outro meio de
conhecimento, e as religiões, como manifestações espontâneas
ou projeções geradas por esses mesmos símbolos, o caminhar do
homem em suas marchas e contra-marchas rumo à Deus, ou ao que seu estado
interior, e isso dependendo do estágio em que se encontre, reconheceu num
dado momento como o retrato da divindade.
Abrimos esse espaço, onde as diversas religiões se apresentam, no
sentido de facilitar que nossas realidades interiores se manifestem à nós,
e por conseguinte, não desejando de qualquer modo, privilegiar esse ou
aquele caminho pois entendemos que cada um deles serve à mesma fonte
interior que cultuamos, e que também cada um deles é representativo do
estado interno de cada um de nós. E em resposta à isso, nossa atitude
para com cada uma delas é de profundo respeito.
Resta-nos
ainda desejar que cada vez mais, em sua própria vida, interior e exterior
se configurem num continuum absoluto, e que sua vida cada vez mais seja
norteada pelo sagrado, receba esse a denominação que for, ou se utilize
da máscara que convier como facilitador da conexão, do diálogo, do
religare com a fonte verdadeira.
Claudia
Araujo
P/
Meio do Céu
1. Joseph Campbell, As Máscaras de Deus, Editora
Palas Athena
2. Erich Neumann, História da
origem da Consciência – Ed. Cultrix
3. C.G.Jung / Aniella jaffé,
Memórias, Sonhos e Reflexões