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Nós do Meio do Céu desejamos a cada um de nossos leitores que seja capaz de levantar um a um os véus dos Mistérios e penetrar nos recônditos mais sombrios de sua alma, iluminando com a Luz da Verdadeira Sabedoria o altar onde está guardada a Pérola. Claudia Araujo
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Pessoa recorre em vários textos seus à alegoria cenológica, por vezes colorida em tons sinistros, para exprimir esta convicção de uma efectiva ausência de liberdade no arbítrio humano; convicção que, ao incluí-la, vai muito para além da metáfora teatral hegeliana que entende a acção de cada ser humano como expressão inconsciente dos ditames do espírito absoluto, ou seja, Deus, que no indivíduo se realiza e manifesta objectivamente. Personagens míticas do cosmodrama gnóstico comparecem no estrado dos escritos pluriformes de Pessoa, acentuando o distanciamento, a separação que existe entre a alma humana, hóspede da matéria, e o Deus degredado, mas genuíno congénere do espírito. Isto porque o gnosticismo não sendo estritamente monoteísta não se conforma ainda assim a um simples diteísmo; no seu discorrer, tudo está cheio de deuses - como diria o pré-socrático Tales -, ainda que menores ou pervertidos. Encontra-se ele eivado de politeísmo ao personificar não apenas o dáimon radicado em cada um de nós, mas também o demiurgo adverso, de traços emuláveis aos do anjo caído das demonologias (identificação esta, como atrás o dissémos, sustentada pelos cátaros), bem como toda uma série de figuras suas mandatárias como sejam: os arcontes despóticos que regem o mundo físico nas suas leis e nos seus acasos - identificados com as forças simbólicas que presidem ao determinismo astrológico do tempo -; ou ainda, oponentes destes últimos, como são os anjos guardiães que velam por nós se a eles acedermos; e, principalmente, esse dramático mensageiro sacrificial, a partir do qual passámos a contar o tempo histórico. Cristo é, com efeito, para Pessoa o mais decisivo elo da longa e divergente rede de intermediários que se posicionam entre o tempo humano da imanência e a eternidade transcendente. No esboço para um poema lacunar, em moldes de oração, datado de 1934, Pessoa referencia Cristo como um dos mestres da sua alma - decerto um dos assinalados na carta da primeira ruptura com Ofélia Queiroz: «Mestres que não permitem nem perdoam», e a cuja «outra Lei» o seu «destino pertence» 47; supostamente o compelem eles a adoptar um rigorismo monacal próprio de um albigense que tomasse os votos do consolamentum, símbolo ritual de renúncia ascética. «Foi o segundo [mestre] um Taumaturgo Que na Judeia Foi filho irreal do Demiurgo Que é o Arquitecto do Universo; Ao Deus judeu se substitui E a Nova Lei instituiu. » 48 A nova Lei traduz-se na revelação trazida por Cristo; já que segundo a interpretação gnóstica em geral, Cristo é emissário do Deus verdadeiro e não do Javé veterotestamentário, que é tão-só um disfarce do demiurgo. Sendo Cristo um espírito liberador enviado aos humanos pelo rival superior ao demiurgo, este tratará de vingar-se nele, fazendo com que crucifiquem o seu invólucro físico, pois não possui poder de aniquilá-lo para além das vestes carnais; vestes estas que são, aliás, ilusórias para as correntes de interpretação gnóstica defensoras do docetismo, ou seja, que separam e independentizam a individualidade humana e corpórea de Jesus, relativamente à entidade espiritual que «é Cristo, e não pertence a este mundo senão como Deus, que o criou, e é substância dele, lhe pertence.» Pessoa, ao comentar este espiritualismo dualista, refere-se-lhe a partir de um entendimento esotérico do tempo da história humana - movida por determinismos ocultos de implacavéis condutores-arcontes -, pois se bem que «sendo justa a interpretação dos hierólogos radicais» gnósticos, seria ela um dos motivos exteriores para que a sua mensagem revolucionária fosse violentamente expulsa do palco histórico em que surge. «Os Gnósticos, que eram ocultistas, ou pelo menos místicos superiores, assim viram, mas separaram as duas naturezas, adorando só a divina, que lhe era necessariamente superior, e não a humana, que, quando muito, só em grau, que não em género, o poderia ser. Mas os Gnósticos foram condenados por hereges, e como hereges repulsos, e extintos, pelo menos aparentemente. Não foi porém a Igreja que os extinguiu assim, senão o Destino que fez a Igreja poder assim extingui-los. A ideia que apresentavam vinha fora do seu tempo, nem poderia servir aos fins dos Condutores do mundo, embora estes soubessem bem que era mais verdadeira que a que iria ser espalhada e desenvolvida entre as nações pela Igreja Católica.» 49 A epifania cristã, mesmo se compreendida como havendo sobrevivido exotericamente deturpada na versão dogmática dos vencedores eclesiais, abrirá o caminho para Pessoa sustentar visões menos desesperantes sobre o tempo histórico e o futuro da humanidade. São muitos os textos seus, em poesia e prosa, nos quais Pessoa renuncia ao niilismo feroz exposto no poema Natal que aqui analisámos. O seu ocultismo cristológico rosacruciano aceitará mesmo embarcar em frágeis naus de utopias teleológicas, comprometidas com o porvir de uma pátria idealizada, mítica e cavaleiresca; coração marítimo que para si adoptou na maioridade, quando se viu compelido a decidir-se por uma cidadania identitária: ou a anglófona da formação sócio-escolar, ou a lusófona do berço parental; devotando-se a tais profecias com bem maior fervor místico e afectivo - próprio de um marinheiro apátrida que subitamente se enamorasse por um porto que o abriga em transitoriedade - do que desprendimento gnóstico. E quanto a este contraditório misticismo pessoano, Teresa Rita Lopes - no posfácio à edição que fixou do gnóstico conto A Hora do Diabo - considera mesmo plausível captá-lo por uma lógica binária constituída pela vontade de crer e pela acção dissolvente do cogitar: «Pessoa é um místico que quer crer, mas descrê por tentação e por princípio. "Crer é morrer; pensar é duvidar" afirma. O espírito religioso que é leva-o a crer mas o pensador põe tudo em dúvida.» 50 Por isto, igualmente, o facto de Pessoa se reencontrar no gnosticismo, pela fusão que este labora entre crer e inteligir, com o fito de se guindar a uma via espiritual outra situada para além de ambas essas funções da psique. Em linha teleológica de universalista alcance, são de salientar as leituras de Pessoa - às quais já aludimos - acerca de uma diacronia histórica dotada de sentido latente e não de todo minada pelo absurdo, antes resultado de um combate invisível entre os poderes que se digladiam nos bastidores do teatro astral, no qual os humanos se assemelham às peças manipuláveis de um planetário tabuleiro de xadrez. Aí se situam as suas apreciações acerca do fenómeno da repressão e sobrevivência marginal e subterrânea da heresia gnóstica, ao longo do tempo, desde a sua aparição no drama da história; nomeadamente os aspectos de nunca as ortodoxias do cristismo - designação pessoana - haverem mostrado capacidade em sancionar as concepções psicomíticas da reencarnação, do ontológico simbolismo - cabalístico e hermético - veiculado pela androginia adâmica, ou da evidência da criação imperfeita. Quanto à imagem do tempo, ela somente ganha uma positividade se for tomada como a simulação que pressupõe graus analógicos, apontando para a afirmação gnóstica de um Deus ausente, denominado por Pessoa, nesta significativa passagem, de Deus imanifesto. «Espaço e tempo são dois atributos ou manifestações do Infinito, que o simulam sem o ser. Parecem-nos infinitos (...) - são, porém, somente indefinidos. (...) No tempo e no espaço decorre a matéria; só no tempo a Alma; no Infinito Puro, Deus. Este Infinito é, porém, só Deus Imanifesto - não manifesto como Mundos senão manifesto como Deus. Para além, supremo deveras, está o Deus Imanifesto - a ausência até de Infinito. » 51 Cristo é para Pessoa o laço entre o mundo e esse Deus longínquo, despertando o seu contacto, nos humanos receptores da sua mensagem, o desejo de as suas centelhas de luz a Ele regressarem, «o desejo de Liberdade» 52 e de fuga ao império do tempo, do fado, do destino. É desarmante a simplicidade com que nos fala disto o poema, chamado com concisão, Liberdade, que tantos de nós conhecem de cor. No seu último ano de vida, o Pessoa ortónimo concilia nele o despojamento iniciático com uma gnose cristã límpida, surpreendente na sua luminosidade ingénua, rebelde e compassiva. Nem necessário se torna enfatizar o quanto a visão pessoana assimila e mobiliza de um manancial especulativo e de um imaginário de tradição heterodoxa, que excedem e desconstroem a discursividade filosófica de contornos comummente académicos. Aliás, o pensamento filosófico com a sua família dissensual de sistemas é por ele visto como uma etapa no acesso à iniciação gnóstica, mas, como etapa que é, deverá ser a certa altura superada, equiparando-se o valor de verdade dos seus conteúdos com o de ficções possíveis e argumentáveis, elucubradas pelo raciocínio. A vida, esotericamente entendida como tempo de evolução interior, determina esta digressão do sujeito pelos patamares, nublados pelos véus de Maya, que integram o universo da nossa experiência. Para o candidato ao grau de neófito, Pessoa enumera «quatro estádios da tentação do mundo» que ele tem de atravessar para alcançar a via da gnose: «o Dogma, a Inteligência Concreta ou Ciência, a Inteligência Abstracta ou Filosofia, e a Inteligência Crítica. O Dogma, pelo qual ele está preso aos outros; a Ciência, pela qual ele está preso à Natureza; a Filosofia, pela qual ele está preso aos intelectos dos outros; a sua própria filosofia, pela qual está preso a si próprio. Porque o Mundo é tudo isto.» 53 No entanto, em outro apontamento esparso, o Pessoa consciente do seu génio poético e da aventura reflexiva que empreendeu, adverte a respeito dos dotes requeridos aos prováveis aprendizes de saberes secretos que exigem conquista. «Não se pode porém ser um iniciado, nas formas e maneiras deste mundo sem ser um grande artista, nem ter o comando da inspiração [ou intuição], sem que primeiro se o obtenha da palavra e do raciocínio. Tal é a lei, tal é a escala, tal é a regra [ou via]. Mais pesa na balança da Alma [ou da Gnose] o verdadeiro poeta que pensa o que não sabe, que aquele falso iniciado que sabe o que não pensou.» 54 Na imensa herança que nos legou do tempo de vida sublimado em obra, Pessoa reitera-nos sempre que a mais alta forma de música não reside na exclusividade da filosofia, ao contrário do que supusera o Sócrates platónico antes do último dia da sua vida narrado no Fédon. A música do pensamento está sim no cântico do verbo, mas só quando a demanda do belo artístico se reune com a busca gnóstica da sabedoria; pelas palavras de Álvaro de Campos, diríamos que um tal fruto se obtém das núpcias entre o binómio de Newton e a Vénus de Milo. De qualquer modo, para o Pessoa pitagórico, a música do verbo consistirá no meio mais eficaz de aplacar o tempo, emancipando-nos, por momentos breves inspirados, do seu jugo tirânico sobre o ser que agora somos. Évora-Lisboa, Novembro de 1997 / Setembro de 2002 NOTAS 1 LOURENÇO, Eduardo, Poesia e Metafísica - Camões, Antero, Pessoa, Lisboa, Sá da Costa, 1983, p. 157. 2 CENTENO, Yvette K., O Pensamento Esotérico de Fernando Pessoa, Lisboa, & etc, 1990, p. 13. 3 PESSOA, Fernando, Obra em Prosa - Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas, prefácio, edição de António Quadros, Mem Martins, Europa-América, 1986, p. 253. 4 PESSOA, Fernando, Poemas de, vol. I, 1934-35, edição crítica de Luís Prista, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2000, p. 63. 5 in SENA, Jorge de, Fernando Pessoa & Cª Heterónima, Lisboa, Edições 70, 1984, p. 161. 6 PESSOA, Fernando, Obra em Prosa, op. cit., 22. 7 PESSOA, Fernando, Obras em Prosa, vol. IV - Textos Filosóficos, edição de João Gaspar Simões, Lisboa, Círculo de Leitores, 1977, pp. 97-104; recordamos os referidos versos antológicos de Hamlet (cit. idem p. 99): «There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are known of in your philosophy.» 8 PESSOA, Fernando, (SOARES, Bernardo), Livro do Desassossego, vol. II, edição de Teresa Sobral da Cunha, Lisboa, Lisboa, 1991, p. 104. 9 DURRELL, Lawrence, Monsieur ou o Príncipe das Trevas, trad. de Daniel Gonçalves, Lisboa, 2ª edição, Difel, 1984, p. 109. 10 PESSOA, Fernando, Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1981, p. 73. 11 A caracterização de Nietzsche como um autor «quasi-gnóstico» é de lavra bloomiana, na sequência da interpretação que este faz das aproximações que Hans Jonas elabora entre Nietzsche e as filosofias da existência: BLOOM, Harold, Omens of Millennium - The Gnosis of Angels, Dreams, and Resurrection, Nova Iorque, Riverhead Books, 1996, p. 245; quanto a Beckett, afigura-se-nos adequado adoptar também para ele o epíteto de quasi-gnóstico, em conformidade com o percurso gizado em ensaio nosso onde procedemos a uma leitura de obras da dramaturgia beckettiana, tendo a mundividência gnóstica por cenário hermenêutico: ROSA, Armando Nascimento, Falar no Deserto - Estética e Psicologia em Samuel Beckett (Teatro, 1958-61), Lisboa, Cosmos, 2000. 12 PESSOA, Fernando, Poemas de, vol. I, 1934-35, op. cit., p. 64. 13 «Par besoin de salut immédiat, [le gnosticisme] brisera la servitude et la répétition du temps cyclique de l'hellénisme aussi bien que la continuité organique du temps unilinéaire du christianisme; il fera voler en éclats ( le mot n'est pas trop fort ) l'un et l'autre. En termes plus brefs encore et plus imagés, la partie se joue entre trois conceptions opposées, òu le temps peut être respectivement figuré, dans la première par un cercle, dans la deuxième par une ligne droite, dans la troisième, enfin, par une ligne brisée.» PUECH, Henri.Charles, En Quête de la Gnose, I - La Gnose et le Temps, Paris, Gallimard, 1978, [reimp. 1996], p. 217. 14 LOURENÇO, Eduardo, Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade, Lisboa, Gradiva, 1999, p. 156. 15 CENTENO, Yvette, K., O Pensamento Esotérico de Fernando Pessoa, op. cit., p. 29. 16 PESSOA, Fernando, Obra Poética, op. cit., p. 58. 17 ROSA, Armando Nascimento, O Complexo de Inês: Identificação Literária de um Arquétipo, in revista Aprendizagem / Desenvolvimento, Lisboa, edição do Instituto Piaget, nº 27/28, 1º e 2º trimestres de 1999, [pp. 137-142]. 18 PESSOA, Fernando, Obras em Prosa, vol. IV, Textos Filosóficos, op. cit., p. 115. 19 PESSOA, Fernando, Obra Poética, op. cit., p. 19. 20 PESSOA, Fernando, idem, p. 62. 21 PESSOA, Fernando, (SOARES, Bernardo), op. cit, p. 176. 22 PAGELS, Elaine, Os Evangelhos Gnósticos, trad. de Luís Torres Fontes, Porto, Via Optima, 1999, p. 18. 23 «What makes us free is the knowledge who we were, what we have become; where we were, wherein we have been thrown; whereto we speed, wherefrom we are redeemed; what is birth and what rebirth.» VALENTINO, cit por, JONAS, Hans, The Gnostic Religion - The Message of the Alien God and the Beginnings of Christianity, Londres, 2ª edição, Routledge, 1992, p. 334. 24 «Eu era um poeta animado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas. Eu gostava de admirar a beleza das coisas, rastrear no imperceptível do minuto que passa a alma poética do universo. A poesia da terra nunca morre (...). Porque a poesia é espanto, admiração, como de um ser caído dos céus, tomando plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como alguém que conhecesse as coisas nas suas almas, debatendo-se para recordar este conhecimento, lembrando-se de que não fora assim que as conhecera, nem sob estas formas nem nestas condições, mas de nada mais se lembrando.» [tradução nossa] PESSOA, Fernando, Obra em Prosa - Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas, op. cit., p. 23. Repare-se como este texto, com a data presumível de 1910 conforme atribuição de António Quadros, faz perceber que os estádios nos quais este comentador pessoano dividiu o percurso intelectual do autor só ganham sentido efectivo enquanto focos de aproximação metodológica à obra labiríntica do poeta, mas não parecem deter definição periodológica estritamente sequencial, pois rapidamente esta seria contrariada pela evidência despistante das datações textuais. Com efeito, o assim chamado estádio gnóstico pessoano não se acomoda a um culminar cronobiográfico de síntese dialéctica, depois de um estádio filosófico tético e de um estádio neo-pagão antitético, visto que Pessoa escreve desde cedo - como é o exemplo desta precoce introspecção - de uma perspectiva manifestamente gnóstica; por muitos lugares teóricos que percorra entretanto, ele próprio disse não se reconhecer no evoluir, mas sim no viajar. Melhor que ninguém, Pessoa mostrou-nos que a gnose brota de um olhar inato interior que se aprofunda, e não é um mero produto dos circunstancialismos de assimilação cognitiva; o sujeito busca no tempo de vida as fontes que o saciem, e não são as fontes que despertam, por si só, a sede subjectiva dessa procura. 25 PESSOA, Fernando, Obra Poética, op. cit., p. 62. 26 PESSOA, Fernando, Moral, Regras de Vida, Condições de Iniciação, edição de Pedro Teixeira da Mota, Lisboa, Edições Manuel Lencastre, 1988, p. 96. 27 PESSOA, Fernando (SOARES, Bernardo), op. cit., p. 145. 28 «Another notable difference [between Christian and Hermetic Gnosticism] is that the highest God and the creator, or Demiurge, are not designated as opposed or antithetical powers, and consequently the cosmos and the material world are regarded as deficient but not degenerate orders of being and there is no expression of the characteristic gnostic repugnance toward the physical and material.» HOLROYD, Stuart, The Elements of Gnosticism, Shaftesbury/Dorset, Element, 1994, p. 77. 29 « Schooled as we are by Jewish and Christian accounts of this event, or by the angry Gnostic inversions of those accounts, we are likely at first to be lulled by the equable tone of this Hermetist version. Its affect is subtle and nostalgic, and also preternaturally quiet, even though it describes catastrophe rather than a fortunate Fall. To be drugged by the embrace of nature into what we call most natural in us, our sleepiness and our sexual desires, is at once a pleasant and an unhappy fate, since what remains immmortal in us is both androgynous and sleepless. The Pagan Gnosticism of the Hermetists is far gentler and more resigned concerning this paradox than anything to be encountered in Jewish or Christian Gnosticism.» BLOOM, Harold, Omens of Millennium - The Gnosis of Angels, Dreams, and Resurrection, op. cit., pp. 180-181. 30 «O homem não estava destinado a ser aquilo que é: ele só veio a tornar-se assim pela Queda. Reencontrar a Palavra é reencontrar a verdadeira Lei Humana, o Adão primitivo e andrógino, feito desse modo à imagem de Elohim. Fazer em si mesmo o casamento dos dois princípios - eis aí a Lei Humana reencontrada, a verdadeira criação da pedra filosofal.» [tradução nossa] PESSOA, Fernando, in LOPES, Teresa Rita, Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa, vol. II, Lisboa, Estampa, 1990, p. 96. 31 CAMPOS, Álvaro de, Livro de Versos, edição crítica de Teresa Rita Lopes, 2ª edição, Lisboa, Estampa, 1994, p. 165. 32 CENTENO, Y. K., Fernando Pessoa: o Amor, a Morte, a Iniciação, Lisboa, A Regra do Jogo, 1985, p. 47. 33 PESSOA, Fernando, (SOARES, Bernardo), op. cit., p. 132. 34 PESSOA, Fernando, (SOARES, Bernardo), op. cit., p. 209. 35 CORREIA, Natália, Poesia de Arte e Realismo Poético, Lisboa, edição A Antologia, 1958, pp. 18-19. 36 LOURENÇO, Eduardo, Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade, op. cit., p. 164. 37 PESSOA, Fernando, idem, pp. 227-228. 38 «Is time coexistence? Then a thing while lasts coexists with itself? But since no two coexistents are equal, a coexistent is not equal to itself if it coexists with itself; hence change.» PESSOA, Fernando, Pessoa Inédito, edição coordenada por Teresa Rita Lopes, Lisboa, Horizonte, 1993, (trecho nº 262 traduzido por A. M. Nunes dos Santos), p. 415. 39 PESSOA, Fernando, Obra Poética, op. cit., p. 406. 40 PESSOA, Fernando, Obra em Prosa: A Procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e Esotéricos, edição de António Quadros, Mem Martins, Europa-América, 2ª edição, 1989, p. 187; a edição de onde optámos extrair a citação não inclui porém o original inglês, que fora já publicado anteriormente in CENTENO, Yvette, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do Espólio, Lisboa, Presença, 1985, pp. 65-66 [trad. de Maria Helena Rodrigues de Carvalho], 77. 41 A temática da união mística com Deus, avançada neste trecho, bem como as referências à mitologia hindu e a uma orientalizante inconsciência universal são ecos prováveis do convívio textual de Pessoa com Helena Blavatsky, teósofa de quem o poeta traduziria: Luz sobre o Caminho, Karma e A Voz do Silêncio (cfr. ANES, José Manuel, Fernando Pessoa e a Teosofia, prefácio a BLAVATSKY, Helena, A Voz do Silêncio, tradução e notas de Fernando Pessoa, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, p. 9). 42 JUNG, Carl Gustav, Aion. Estudos sobre o Simbolismo do Si-Mesmo, trad. de Dom Mateus Ramalho Rocha, Petrópolis, Vozes, 5ª edição, 1998, p. 141. 43 «A vida não é da natureza da luz mas da natureza do fogo. Vida, a eterna agonia da incerteza, um horrível nada. Um sentimento que é loucura do pensamento.» PESSOA, Fernando, Textos Filosóficos, op. cit., p. 115. 44 LOURENÇO, Eduardo, Fernando Rei da Nossa Baviera, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1986, p. 108. 45 PESSOA, Fernando, Moral, Regras de Vida, Condições de Iniciação, op. cit., p. 103. 46 Muito recentemente, Eugénia Vasques chamou-nos a atenção, para a presença de teses semelhantes às de Luria em textos de Joséphin 'Sâr' Péladan (1859-1918), figura que de si projectou uma persona de excêntrica teatralidade comportamental. Péladan foi esteta, esoterista, prosador e dramaturgo integrado no movimento simbolista, de cujas obras Pessoa, apesar de francófonas, deverá seguramente ter tido notícia - não obstante a difícil legibilidade delas, culpa do estilo rebarbativo do autor; conforme se queixaram Sampaio Bruno (o primeiro autor português a apreciar e divulgar Péladan) e Mircea Eliade, que sobre elas se debruçou, ao analisar o arquétipo do andrógino que é obsessão e utopia central dos textos de Péladan. 47 PESSOA, Fernando, in CENTENO, Y. K., Fernando Pessoa: Os Trezentos e outros Ensaios, Lisboa, Presença, 1988, p. 143. 48 PESSOA, Fernando, Cartas de Amor Lisboa, Ática, 1978, p. 131. 49 PESSOA, Fernando, Rosea Cruz, edição de Pedro Teixeira da Mota, Lisboa, Edições Manuel Lencastre, 1989, p. 238. 50 PESSOA, Fernando, Obra em Prosa: A Procura da Verdade Oculta - Textos Filosóficos e Esotéricos, op. cit., pp. 198-199. 51 LOPES, Teresa Rita, História e Alcance de A Hora do Diabo, posfácio a: PESSOA, Fernando, A Hora do Diabo, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio e Alvim, p. 62. 52 PESSOA, Fernando, Rosea Cruz, op. cit., p. 153. 53 ibidem. 54 PESSOA, Fernando, in CENTENO, Yvette, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do Espólio, trad. de Maria Helena Rodrigues de Carvalho, op. cit., pp. 67, 79. 55 PESSOA, Fernando, Rosea Cruz, op. cit., p. 226. -------------------------------------------------------------------------------- Lisboa, 20 de Setembro de 2002 * Professor adjunto da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa; doutorado em Literatura Portuguesa Dramática - séc. XX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa) |