Nós do Meio do Céu desejamos a cada um de nossos leitores que seja capaz de levantar um a um  os véus dos Mistérios e  penetrar nos recônditos mais sombrios de sua alma, iluminando com a Luz da Verdadeira Sabedoria o altar onde está guardada a Pérola.  

                                         Claudia Araujo

 

 

A COMUNIDADE Q 
Mario Porto

 



Segundo Burton L. Mack, os escritos da comunidade "Q" são os primeiros registros que temos dos movimentos primitivos de Jesus, e é um texto verdadeiramente precioso. Eles documentam a história de um grupo específico do movimento primitivo de Jesus, por um período de cerca de 50 anos, desde a época em que Jesus tinha 20 anos até após a guerra Romano-Judaica nos anos 70. O notável sobre este grupo é que ele se desenvolveu dentro de uma comunidade, firmemente, interligada e produziu uma vasta e grandiosa mitologia, simplesmente atribuindo, mais e mais ensinamentos a Jesus. Eles não precisaram imaginar Jesus no papel de um Deus ou contar estórias sobre sua ressurreição dos mortos para honrá-lo como um mestre. Em outras palavras eles não eram cristãos, eram sim, um grupo de Jesus. As camadas primitivas dos ensinamentos de Jesus em Q são as menos interpoladas de todas as suas citações em documentos existentes. Isto significa, que Q nos coloca mais próximos do Jesus Histórico do que jamais poderemos estar. 

Portanto, é enorme a importância de Q. Os desafios sobre a concepção popular das origens Cristãs é claro. Se a visão convencional dos primórdios do Cristianismo está certa, como podemos explicar esses pioneiros de Jesus. Será que não entenderam a mensagem? Eram ignorantes do evangelho da salvação ou os repudiavam? Se, entretanto, os primeiros seguidores de Jesus entendiam o propósito do movimento, da maneira descrita em Q, como explicaremos a aparição dos cultos de Cristo, as fantásticas mitologias dos evangelhos narrativos e o eventual estabelecimento do culto e da religião Cristã? Q nos força a repensar as origens do Cristianismo como nenhum outro documento dos primeiros tempos. Após a descoberta de Q, os evangelhos narrativos não podem mais serem vistos como relatos dignos de confiança sobre os eventos históricos que culminaram com o estabelecimento da fé Cristã. Temos agora que considerar os evangelhos como resultados da elaboração do primitivo mito Cristão. Como já dissemos, Q força essa questão, porque não concorda com os relatos dos evangelhos narrativos. 

Q é oriundo da palavra alemã Quelle , que significa "fonte". O texto obteve este nome quando historiadores descobriram que tanto Mateus como Lucas usaram uma coleção de citações de Jesus como uma de suas "fontes" para seus evangelhos, sendo a outra fonte o evangelho de Marcos. Os estudiosos sabiam a mais de 150 anos que alguma coisa como Q tinha que ter existido, mas apenas recentemente tiveram a certeza. Apesar de tudo, todos sabíamos qual o o conteúdo do documento porque os seus ensinamentos estavam lá, nos evangelhos de Mateus e Lucas. Uma vez que não tínhamos um manuscrito Q independente que teria sido perdido na balbúrdia do início do segundo século, um conhecimento profundo de Mateus e Lucas seria necessário caso quiséssemos reconstruir o texto original que eles tinham em comum. Foi uma surpresa, quando alguns especialistas curiosos, começaram a reconstruir um texto unificado e olharam Q como uma peça de literatura independente, uma peça de literatura que tinha conduzido um movimento de Jesus por meio século, antes de Mateus e Lucas sequer pensarem em mesclá-lo com a estória de Marcos sobre Jesus. 

Um mundo Cristão, inteiramente, diferente veio à tona. 

Uma vez que o texto de Q não é encontrado separadamente, em nenhuma cópia do Novo Testamento, teremos que nos referir aos seu conteúdo citando o capítulo e versículo no evangelho de Lucas. A preferência de Lucas sobre Mateus é devida ao fato de que Lucas não alterou a seqüência e terminologia das citações tanto quanto Mateus alterou (assim Q 11:1-4 = Lucas 11:1-4). No artigo FAQ do Problema Sinótico você poderá encontrar alguns subsídios para entender as hipóteses da construção dos evangelhos sinóticos. 

Q coloca os primeiros povos de Jesus no foco, e o quadro é tão diferente daquele que todos sempre imaginaram que se torna surpreendente. Ao invés de pessoas se reunindo para adorar um Cristo, como nas congregações Paulinas, ou preocupando-se com o que significa ser um seguidor de um mártir, como nas Comunidades de Marcos, o povo de Q estava, completamente dedicado às questões presentes sobre o Reino de Deus e com o comportamento necessário para alguém abraça-lo seriamente. 

Estudos recentes identificaram três camadas de material de instrução em Q. Cada uma dessas camadas corresponde a um estágio na história da comunidade Q. Isto permite rastrear a história dos primeiros movimentos de Jesus acompanhando as mudanças nas referências a respeito da idéias do Reino de Deus. Nenhum outro texto ou conjunto de textos do primeiro século nos preenche com as histórias inteiras de uma comunidade "Cristã" primitiva. Os estudiosos agora se referem a essas camadas como Q 1 ,Q 2 e Q 3 . A camada mais antiga,Q 1 , consiste, extensivamente, das citações sobre a sabedoria de ser um verdadeiro seguidor de Jesus. Q 2 , por outro lado, introduz pronunciamentos de julgamentos proféticos e apocalípticos sobre aqueles que se recusarem a ouvir os ensinamentos de Jesus. E, finalmente, Q 3 registra uma retratação ao desgaste de encontros públicos para tratar de idéias de paciência e piedade para os iluminados enquanto esperam seu momento de glória num certo futuro no fim da história humana. 

Um fato notável sobre o material de Q 1 é que ele advoga por um estilo de vida evolucionário, transformando aforismos em prescrições de comportamento. Uma injuriosa recriminação tal qual " Deixa os mortos sepultarem os seus mortos, tu vai e anuncia o reino de Deus ", pode ser isolada no núcleo de um pequeno aglomerado de citações, tornando-se um princípio de comportamento adequado ao novo reino. Neste caso, o comportamento recomendado é simplesmente o compromisso com o reino (Q 9:57-62). Podemos identificar sete temas no bloco Q 1 : 
A maior unidade (Q 6:20-49) consiste de ensinamentos de Jesus a respeito de a quem pertence o reino de Deus ("os pobres, famintos, os que choram"), e como tratar os outros ( o que quereis que os homens vos façam, fazei-lhes o mesmo a eles"), e sobre julgamentos aos outros (" não julgueis e não sereis julgados"); 
O segundo bloco de Q 1 é sobre tornar-se um seguidor e trabalhar para o reino de Deus (Q 9:57-10:11); 
O terceiro é sobre ter confiança em pedir a Deus (o Pai) (Q 11:1-13); 
O quarto diz que não se deve ter temor de falar (Q 12:2-7); 
O quinto explica que não deve existir preocupação com alimentação, vestuário e que o desejo por coisas pessoais é tolice (Q 12:13-34); 
O sexto ensina que como a semente e o fermento, o reino de Deus crescerá (Q 13:18-21); 
O sétimo fala sobre os encargos de ser um seguidor e sobre as conseqüências de não levar o movimento a sério (Q 14:11, 16-24, 26-27, 34-35). 
Se datarmos esse material em cerca de 50 C.E., na altura dos primeiros vinte anos do movimento, podemos verificar o que o povo de Jesus vinha fazendo. Eles estavam profundamente envolvidos em definir, exatamente, o que significava pertencer à escola de Jesus. Eles despenderam um grande esforço intelectual para encontrar argumentos para um determinado tipo de atitudes e ações consideradas fundamentais para alcançar-se o reino de Deus. Podemos definir o perfil do estilo de vida que eles estavam recomendando? Se fizermos uma lista dos imperativos que estão próximos aos núcleos das menores unidades de Q 1 podemos começar a enxergar que um tipo de programa estava na mente dos primeiros povos de Jesus. A lista inclui os seguintes imperativos ou regras de comportamento: 

Ame os seus inimigos (Q 6:27); 
Se apanhar numa face ofereça a outra (Q 6:29); 
Dê a todos que pedem (Q 6:30); 
Não julgue e não sereis julgados (Q 6:37); 
Remova primeiro a trava do seu próprio olho (Q 6:42); 
Deixe os mortos enterrarem os seus mortos (Q 9:60); 
Eis que vos mando como cordeiros ao meio dos lobos (Q 10:3) 
Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias (Q 10:4); 
Dizei-lhes: É chegado o reino de Deus (Q 10:9); 
Pedi e dar-se-vos-á (Q 11:9); 
Não estejais apreensivo pela vossa vida (Q 12:22); 
Buscais antes, o reino de Deus (Q 12:31). 
Um programa com muito risco parecia estar em andamento. Ricos, mau uso da autoridade e poder, hipocrisias e pretensões, iniqüidades sociais e econômicas, injustiças e até mesmo lealdades familiares normais estavam, inteiramente, sob suspeita. O reino ideal estava sendo estabelecido em antagonismo aos costumes tradicionais, através da orientação de que os seguidores de Jesus deveriam praticar a pobreza voluntária, o afastamento dos laços familiares, a renúncia de bens, a coragem de falar e aplicar a não-retaliação. 

Um tremendo programa. Fazia esse programa algum sentido? 

A resposta é afirmativa. O estilo de vida do povo de Jesus guardava estrita semelhança com a tradição grega da filosofia popular característica dos Cínicos. Os Cínicos também promoveram um afrontoso estilo de vida como maneira de criticar os costumes convencionais e os temas dos dois grupos, Cínicos e povo de Jesus, eram bastante coincidentes. Os Cínicos ajudaram ao homem comum ganhar alguma percepção sobre a maneira como seu mundo funcionava, desta forma as pessoas não encontraram problemas para entender o que o povo de Jesus estava dizendo. 

A diferença entre o povo de Jesus e os Cínicos era a seriedade com a qual o movimento de Jesus encarava a nova visão social do reino de Deus. Isto era reflexo da preocupação judaica por uma sociedade trabalhadora real, como sendo o contexto necessário para qualquer bem-estar individual. Foi esse interesse em explorar uma visão social alternativa que afastou o movimento de Jesus de um mero apelo Cínico. Pode-se ainda detectar algum humor do tipo Cínico no estilo aforístico das citações: "Porque onde estiver o vosso tesouro ali estará também o vosso coração" (Q 12;34); "Pode porventura o cego guiar o cego" (Q 6:39); "Porque qualquer que pede recebe" (Q 11:10). Assim a fase inicial dos movimentos de Jesus devem ter sido caracterizada por um espírito mais brincalhão do que aquela caracterizada pelo material Q 1 que chegou até nós. 

Mas o processo de formação dos grupos, e a fase de agir seriamente como grupos, estabeleceu uma atitude não-Cínica. Todos os blocos do material de Q 1 revelam uma tentativa estudada de expressar um claro conjunto de códigos para o movimento de Jesus como uma formação social, códigos estes que giravam em torno de definir quem, realmente, pertencia ao reino. As instruções Q 10: 1-11, por exemplo, são direcionadas para orientar um comportamento adequado quando se tivesse que representar o movimento de Jesus em outra cidade. Estas instruções, mostram que existia uma rede de pequenas assembléias de grupos, que poderia ser considerada como suporte ao movimento. Assim, o período inicial de tentar um novo reino por intermédio do estilo tipo Cínico, evoluiu para uma bem mais complexa empreitada. O foco não estava somente no estabelecimento de uma lista de códigos para definir um verdadeiro discípulo, mas em estabelecer padrões para reconhecimento e para os relacionamentos autênticos dentro da comunidade dos companheiros seguidores de Jesus. A formação social do povo de Jesus e a visão social do reino de Deus começaram a se espelhar uma na outra. 

A motivação em Q 2 é, drasticamente, diferente. O processo de formação social tinha pago o seu preço. Famílias tinham sido separadas, um código de comportamento estrito tinha sido estabelecido pelos demais Judeus para censurar ou levar ao ostracismo o povo de Jesus, algumas cidades os incitavam a se afastarem e alguns membros antigos decidiram que o estresse era muito grande. A lealdade era nessa hora o apelo principal, e alguns seguidores de Jesus tiveram que decidir entra a família e o movimento. Aqueles que permaneceram fiéis, a despeito das tensões sociais, encontraram novas razões para dizer sim ao movimento de Jesus, mas a maioria dessas razões era o lado secundário de argumentos extravagantes de comparação com aqueles que eram considerados do lado errado. "Mas ai de vós fariseus. Vocês são como sepulturas bonitas por fora, mas cheia de poluição por dentro" (Q 11:42; cf Mateus 23:27). "E digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade" (Q 10:12). 

Assim, ao invés do estilo de crítica social através dos aforismos alegres, característico dos primeiros tempos de experimentação social, ou mesmo do tom mais sério de instrução que definiu o posterior desenvolvimento do povo de Jesus, a comunidade Q adotou uma postura firmemente judicatória em relação ao mundo. Pronunciamentos apocalípticos ameaçadores do juízo final eram dirigidos contra aqueles que recusavam o programa do reino. E assim o tempo para a completa realização do reino foi adiado para o fim dos tempos ( eschaton ). 

Os conflitos sociais refletidos em Q 2 provavelmente tiveram lugar durante os anos 50 e 60, embora algumas das citações são melhor entendidas como uma linguagem cunhada nas sombras da guerra Romano-Judaica. Com este tipo de linguagem soando em seus ouvidos, os escribas do movimento de Jesus tiveram que rever seus manuais de instrução sobre Jesus. Eles mantiveram os livros antigos de instruções e sabedoria ética que hoje identificamos como Q 1 , porque esses haviam se tornado em ensinamento padrão para a comunidade. Mas adicionaram material judicatório e profético para promover o enquadramento na nova motivação. O novo manual foi arranjado de maneira cuidadosa, tecendo o material apocalíptico e judicatório no conjunto primitivo de instruções, dando a impressão que o material original tinha sido preparado com o juízo final em mente. 

Entretanto, dois problemas conceituais tinham que ser resolvidos para que essa revisão fosse realizada. O primeiro era o fato de que o povo de Jesus tinha se acostumado a encarar Jesus como um mestre de sabedoria e agora tinham que imaginá-lo como sendo também um profeta apocalíptico. Isto requeria uma grande mudança na caracterização. O outro problema era que, tendo experimentado um fracasso adiando a realização de sua visão até a data da justificação, a comunidade tinha agora a obrigação de estar bem segura de estar no caminho certo. Isto requeria um horizonte de história bem mais vasto do que a comunidade jamais tinha considerado ser necessário. 

Ambos os problemas foram resolvidos com revisões imaginativas da figura de Jesus e dos seu papel na história épica de Israel. Estas revisões foram engenhosas. O primeiro movimento foi introduzir a figura de João Batista como profeta do julgamento e pregador do arrependimento (Q 3:7-9). O segundo movimento foi João prever "aquele que virá" quem ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga" (Q 3:16-17). Então, esses escribas deixaram João e Jesus falarem um sobre o outro para ver o que cada um sabia do outro (Q 7:18-19, 22-28, 31-35). Como os escribas imaginaram, Jesus reconhece João como o último dos profetas de Israel e assim "aquele que virá", e João previu um ainda "maior" para vir, o qual, obviamente, era Jesus. Jesus era "maior", de acordo com os escribas, porque ele era tanto um sábio como um profeta. Ele era um sábio pelo virtuosismo de seus ensinamentos em Q 1 . Ele era um profeta em virtude dos seus julgamentos apocalípticos que breve seriam ouvidos de seus lábios. 

A possibilidade espantosa oferecida por essa simples história imaginária era que, como filho da sabedoria, Jesus poderia saber o que Deus teria desejado desde o início da criação. E como um profeta apocalíptico ele poderia saber o que aconteceria no final dos tempos. Resultado: Jesus tornou-se o vidente da história passada e o profeta do fim da história. Seus seguidores poderiam agora estar seguros que eles estavam, exatamente, onde deveriam estar, unidos com o grande plano de Deus para Israel e prontos para assumir seus lugares quando o julgamento final ocorresse. 

Esta solução engenhosa para seus problemas tem que ser julgada como um golpe de gênio na criação do mito, não importando o que se pense propriamente sobre o mito. Sobre o João Batista histórico e sua relação com esse movimento, os estudiosos ainda estão quebrando a cabeça entre várias opções. O fato importante para para nossos propósitos é que João entrou na cena da imaginação da comunidade Q sobre Jesus como um segundo estágio na criação do mito, de maneira a redesenhar o próprio papel de Jesus. 

As adições de Q 3 foram feitas algum tempo depois da guerra Romano-Judaica. Elas incluem o lamento sobre Jerusalém (Q 13:34-35), a estória da tentação de Jesus (Q 4:1-13), afirmações sobre a importância da lei Mosaica (Q 16:16-18) e a promessa final aos fiéis: "E vós sois os que tende permanecido comigo sentareis no trono, julgando as doze tribos de Israel" (Q 22:28-30). Q 3 não é uma grande revisão do manual, mas introduz algumas novas idéias sobre o relacionamento do povo de Q com a história de Israel, e elevou a mitologia de Jesus ao nível de um ser divino que poderia ser imaginado conversando com Deus como seu Pai e debatendo com Satanás como seu tentador. O Tópico em ambos os casos era a própria "autoridade de Jesus sobre todo o mundo." (Q 4:6-7). Tudo parece crer que a poeira do período Q 2 havia baixado e que o povo de Q teria afinado o tom de suas respostas àqueles que lhes eram críticos. Talvez a guerra tenha se encarregado dos antagonismos primevos ou transformado a paisagem cultural tão drasticamente, que a postura pré-guerra do movimento se apresentasse então tola, mesmo para o povo de Jesus. 

Foi o livro de Q, no nível Q 3 , que atraiu a atenção de outros grupos de Jesus, foi então copiado e lido por outra geração dentro dos movimentos de Jesus e, eventualmente, incorporado nos evangelhos de Mateus e Lucas e se perdeu até recentemente para a história, quando então os estudiosos o reconstruíram. Historiadores da segunda corrente diferente de Mack, considerando que se está apostando muitas fichas na primeira camada de um documento não mais existente, construído a partir de outros, Mateus e Lucas, escritos após meio século e algumas revisões. Estes historiadores consideram que o Jesus, mestre com estilo dos Cínicos é inteiramente ausente nas epístolas do primeiro século, e portanto, deveria ser examinada a possibilidade de que esta camada de Q não pertencer a Jesus, e sim ser o produto de algum reduto Cínico que teria encontrado seu caminho dentro de algum movimento de pregação judaica na Galiléia e somente mais tarde ter sido anexada à idéia de uma figura histórica. Questionam, igualmente, a incongruente mudança de motivação da camada Q 1 para a camada Q 2 , não considerando adequadas as explicações de Mack, que as atribuiu às tensões resultantes das rejeições. A visão convencional do Cristianismo assumia uma visão apocalíptica no início e, gradualmente, mudava para a linguagem da sabedoria quando o mundo não acabava conforme se apregoava. Agora, a seqüência estava disposta de maneira inversa. A mudança não era mais da mensagem apocalíptica para o advento da instrução e da sabedoria, mas da sabedoria para o apocalíptico. Reafirmamos que esta mudança implica numa total reconsideração das origens Cristãs e da maneira como a função da linguagem apocalíptica foi entendida. 

Na minha opinião um forte componente corrobora essa segunda corrente, trata-se do desinteresse da comunidade Q pelos destinos de seu fundador. Isto é certamente incrível. Se seu mestre e fundador tivesse sofrido o destino relatado em Jerusalém, seria crível que a comunidade ignorasse isto ou permanecesse ignorante do fato? Um fato marcante a respeito da comunidade Q é que eles não eram cristãos. Eles não encaravam Jesus como o Messias ou o Cristo. Eles não consideravam sua morte como um evento divino, trágico ou redentor. E eles não imaginavam que ele iria ascender dos mortos para governar um mundo transformado. ao contrário, eles pensavam nele como um mestre cujos ensinamentos tornaria possível viver com verve naqueles dias turbulentos. Assim eles não se reuniam para cultuar em seu nome, honrá-lo como um deus, ou cultivar sua memória através de hinos, orações e rituais. O povo de Q, era um povo de Jesus, não cristãos. 

O desafio de Q ao conceito popular das origens do cristianismo é claro. Se a visão convencional das origens do cristianismo é correta, como explicar estes primeiros seguidores de Jesus? Teriam eles falhado quanto a compreender a mensagem? Estavam ausentes quando o inesperado aconteceu? Teriam seguido em ignorância ou repúdio ao evangelho cristão de salvação? Se, entretanto, os primeiros seguidores de Jesus entenderam o propósito de seu movimento tal qual Q o descreve, como podemos explicar o surgimento do culto de Cristo, da fantástica mitologia dos evangelhos narrativos, e o eventual estabelecimento da igreja e religião cristã ? Q força a questão de se repensar as origens do cristianismo como nenhum outro documento da antiguidade força. Os evangelhos narrativos não podem mais serem vistos como relatos fidedignos dos raros e estupendos eventos históricos na fundação da fé cristã. Os evangelhos, agora têm que ser vistos como resultados da antiga fabricação de mitos cristãos. Q força a questão, pois documenta uma história antiga que não concorda com o relato dos evangelhos narrativos. 

OS PRONUNCIAMENTOS 
Segundo Burton L. Mack, os evangelhos sinóticos incluem muitas estórias sobre Jesus que os especialistas costumam chamar pronunciamentos. Jesus é descrito em uma certa situação; alguém questiona o que ele está dizendo ou fazendo; e Jesus dá uma resposta satírica, irônica e às vezes mordaz. Em muitos casos estas estórias foram embelezadas para descrever a situação, explicar porque a questão foi levantada e discriminar os opositores. Mas mesmo se a passagem se transforma em um diálogo, Jesus tem sempre a última palavra, e freqüentemente uma longa narrativa pode ser reduzida a uma simples troca de desafios e respostas. Vejamos alguns exemplos, numerados para referência futura com J de Jesus como prefixo: 


(J-1) Quando perguntado por que comia com os coletores de impostos e os pecadores, Jesus respondeu, Aqueles que tem saúde não precisam de médico." (Mar 2:17) 

(J-2) Quando perguntado porque seus discípulos não jejuavam, Jesus respondeu, "Por acaso podem jejuar os amigos do noivo enquanto o noivo estiver com eles?" (Mar 2:19) 

(J-3) Quando perguntado porque seus discípulos colhiam grãos no sábado, Jesus respondeu, "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado." (Mar 2:27) 

(J-4) Quando perguntado porque comiam com as mãos sem lavar, Jesus respondeu, "Nada há fora do homem, que, entrando nele o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem." (Mar 7:15) 

(J-5) Quando perguntado quem era o maior, Jesus respondeu, "Se alguém quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos." (Mar 9;35) 

(J-6) Quando alguém o chamou de "Bom Mestre," Jesus retrucou, "Porque me chamas de bom?" (Mar 10:18) 

(J-7) Quando perguntado se o rico poderia entrar no reino de Deus, Jesus respondeu, "É mais fácil passar um camelo por um buraco de agulha, do que um rico entrar no reino de Deus." (Mar 10:25) 

(J-8) Quando alguém mostrou-lhe uma moeda com a inscrição de César e perguntou, "É lícito pagar impostos a César ou não? "Jesus respondeu, Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." (Marc 12:17) 

(J-9) Quando uma mulher na multidão elevou sua voz e disse-lhe "Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que mamaste." Jesus respondeu, "Antes bem-aventurado os que ouvem a palavra de Deus e a guardam." (Lu 11:27-28) 

(J-10) Quando alguém da multidão lhe disse, "Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança," Jesus respondeu, "Homem quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?" (Lu 12:13-14) 


Estas estórias são bastante similares a um grande número de anedotas contadas pelos Gregos sobre os fundadores das várias escolas de filosofia. É evidente a propensão grega pelas formulações rebuscadas, bem como pelo encantamento com as réplicas inteligentes e com o humor satírico. Chamadas de chreiai (úteis), anedotas como estas eram usadas para testar professores, avaliando sua capacidade de manterem a credibilidade diante de seus alunos, e de saírem incólumes de situações desafiadoras. Assim as chreiai eram "'úteis" para compor o que os gregos chamavam uma "vida" ( bios de onde retiramos "biografia"). Isto é porque além do humor, havia outra importante função para essas estórias. As chreiai eram capazes de revelar uma impressão do caráter de um professor ( ethos ). As chreiai criavam o que os especialistas chamam de uma situação retórica, repleta de circunstâncias, oradores, discurso e audiência. Isto significa que boas chreiai podem ser usadas para representar uma escola de tradição. Pode-se verificar como as chreiai foram postas a serviço das construções filosóficas, na obra, Vida de Filósofos Eminentes , do escritor Diógenes Laércio, no início do terceiro século. 

Anedotas do tipo das contadas sobre Jesus eram freqüentes entre as tradições Socráticos e Cínicas. É portanto, valioso comparar as estórias citadas com algumas anedotas típicas dos Cínicos. Um jogo de escaramuças parece ter sido jogado com os Cínicos por aqueles que tinham coragem para enfrentá-los. Uma vez que os Cínicos viviam numa espécie de alienação em relação à sociedade, demonstrando indiferença às suas convenções mas na realidade totalmente dependentes dela para seu viver, qualquer situação poderia servir para pegá-los em uma armadilha. O objetivo era flagrar o Cínico em uma atitude inconsistente apontando a sua falta de completa independência da sociedade. De maneira a vencer o desafio, o Cínico colocava uma abordagem inteiramente diferente sobre a matéria deixando a impressão de que o desafiador não tinha entendido a situação. Vejamos alguns exemplos de Diógenes Laércio, numerados para referência usando-se um C de Cínico : 


(C-1) Quando censurado pelo costume de andar em má companhia, Aristenes respondeu, "Bem, os médicos atendem seus pacientes sem pegar a febre." (DL 6:6) 

(C-2) Quando alguém disse a Aristenes, "Muitos elogiam você", ele respondeu, "O que fiz de errado?" (DL 6:8) 

(C-3) Quando alguém desejava estudar com Diógenes, ele dava-lhe um peixe e dizia para seguir atrás dele. Quando por embaraço o estudante logo atirava o peixe fora deixando-o, Diógenes ria e dizia, "Nossa amizade foi quebrada por um peixe" (DL 6:36) 

(C-4) Quando alguém reprovava-o por freqüentar lugares impuros, Diógenes respondia que o sol também entra nas intimidades sem sair desonrado. (DL 6:63) 

(C-5) Quando perguntado porque suplicava a uma estátua, Diógenes respondeu, "Para praticar em ser recusado" (DL 6:49) 


Os Gregos mediam a resposta pelo seu humor e inteligência e uma certa lógica era envolvida em sair-se ileso do anzol. Assim funcionava a lógica; um interlocutor colocava o Cínico na berlinda (C-4): como você pode freqüentar lugares socialmente inadequados (um eufemismo para casas de prostituição)? O primeiro movimento era identificar a questão enfatizada pelo desafio. Neste caso era a noção de ser "contaminado" ao visitar um local "impuro", isto é, um local socialmente inadequado. O segundo movimento era mudar o foco e encontrar um exemplo de "entrada em local impuro" no qual não havia contaminação. O sol, por exemplo, "entra" nas intimidades sem ficar sujo. A ausência inteligente de correlação entre os dois exemplos criava o humor. Não havia o objetivo de uma ensinamento explícito. O interlocutor poderá, certamente, não se vir a meditar sobre teorias de pureza ou impureza, mas ele poderá muito bem se afastar rindo e deixar o Cínico seguir seu caminho ou mesmo dar-se conta sobre a natureza arbitrária da categorização de puro ou impuro quando usada para uma circunstância social específica. Quanto ao Cínico, este tendo aceito o desafio e tendo administrado a confusão momentânea na lógica da situação foi capaz de escapar da armadilha. 

As anedotas atribuídas a Jesus operavam através da mesma lógica. Em todos os casos os desvios Cínicos são uma característica das réplicas de Jesus. As mudanças na ordem do discurso são facilmente identificáveis. Em J-1, a questão da contaminação é removida pela mudança do foco das condutas de alimentação para a prática médica. É muito parecida com a anedota sobre Aristenes em C-1. Em J-2 a discrepância tem relação com a ocasião na qual o jejum é apropriado. J-3 sustenta a distinção entre duas regras sobre o trabalho nos sábados, uma a proscrição a outra a permissão. Em J-4 a incongruência é criada pela justaposição de condutas de alimentação com observações escatológicas. É similar à resposta de Diógenes em C-4 confundindo contaminação social com natural. As colocações em J-4 e J-5 sustentam a crítica a valores sociais comuns relacionados com a classe social. E a anedota de Jesus em J-10 é semelhante a um grande número de anedotas Cínicas nas quais os estudantes são duramente corrigidos por alguma má interpretação e conduzidos de volta aos seus próprios recursos para enxergar melhor as coisas e começar a estudar o método Cínico. Uma forma branda desta posição do professor contra o futuro aluno é ilustrado em C-3. 

Existem muitas chreiai de Jesus no evangelho de Marcos. Em razão da forma que estas estórias terminam, deixando com Jesus a última palavra, os especialistas denominam essas passagens de estórias de pronunciamentos. Marcos usava essas estórias com grande vantagem na construção do seu evangelho, parcialmente porque elas se constituíam nos blocos de construção para a "vida" (bios) que ele queria escrever, parcialmente porque elas criavam um conflito, o conflito básico da conspiração contra Jesus que Marcos queria desenvolver e parcialmente porque este era o tipo de estória que a própria comunidade de Marcos aprendera a contar sobre Jesus. Existem 28 estórias deste tipo no evangelho de Marcos. Destas, doze estórias tratam de questões que dividiam o povo de Jesus dos Fariseus. A maioria delas foi identificada pelos estudiosos como estórias pré-Marcos, que foram contadas na comunidade de Marcos antes de Marcos decidir usá-las na sua vida de Jesus. Estas são as estórias que tem interesse para nós, pois elas fazem um conjunto e podem ser usadas como janela dentro de um ramo do movimento de Jesus que se opôs à tradição da escola dos escribas e Fariseus. De acordo com a velha tradição Grega, o povo de Jesus, da comunidade de Marcos, imaginava Jesus como defensor de sua própria escola de tradição e o pintavam contra os Fariseus dizendo chreiai . Isto significava que eles se consideravam discípulos da Escola de Jesus. 

A estórias de pronunciamento que apresentam Jesus em debate com os Fariseus todas endereçam questões que tem a ver com a pureza. O conceito de pureza era básico para o sistema social e de propriedade judeu. A partir de um grande sistema legal, ético e da lei do sacrifício que foi desenvolvida durante o período do segundo templo, os Fariseus tiveram sucesso em separar uma pequena lista de práticas ritualistas que eles poderiam realizar em casa. Isto, eles afirmavam, em estrita observância das leis e tradições judaicas. A lista incluía o dízimo, dar esmola, observância do sábado (incluindo oração diária e um dia de jejum na semana), limpeza ( lavagem após atividades que traziam impurezas), regras para as seleção e reparação da comida, regras a respeito das pessoas com as quais se podia sentar à mesa. Estas regras não deviam ser entendidas como leis, porque os Fariseus não tinham autoridade oficial sobre nenhuma instituição judaica. Elas eram sinais de piedade, de uma seita progressiva engajada em redefinir o que significava ser Judeu à sombra da destruição do templo. Elas eram, no entanto, extremamente importantes para o reconhecimento de qualquer judeu que desejava ser "puro", isto é, ser reconhecido na comunidade judaica com leal às tradições dos judeus. 

Cabe aqui, para os que não estão familiarizados, uma descrição de quem eram os Fariseus, erradamente há já algum tempo, apresentados no linguajar de gíria brasileira, como uma qualificação pejorativa. Tomando a descrição de Josefos (Guerra dos Judeus 5:2) os Fariseus eram "um corpo dentro da comunidade judaica que professava ser mais religioso que os outros e pretendia explicar a lei mais precisamente". Embora sejamos levados a pensar os fariseus como rigidamente ortodoxos eles eram, em certos aspectos, o elemento progressivo no Judaísmo. De maneira a encontrar novas condições após a queda do templo, os Fariseus se colocaram a interpretar a lei. O desenvolvimento e manutenção das sinagogas como um centro de adoração e instrução é uma conquista dos Fariseus. Eles eram bastante admirados pelos judeus que não eram filiados a nenhuma seita judaica. Os Fariseus clamavam pela autoridade da fé e da instrução enquanto os Saduceus, a classe alta da nobreza e de onde saíam os sumos-sacerdotes, clamava por aquela do sangue e da posição. 

Se fizermos uma lista das questões sob debate nas estórias de pronunciamento da comunidade pré-Marcos o resultado é uma notável correlação com as questões dos Fariseus. Além das questões apontadas de J-1 a J-10 existe um grande número de questões que se colocavam entre o povo de Jesus e os Fariseus, tais como a legitimidade do divórcio, o pagamento de taxas, a lei Mosaica, a base da autoridade, os sinais de honra e as causas das doenças e "espíritos impuros". Portanto quer parecer que este ramo do movimento de Jesus trabalhou sua autodefinição através de um violento debate com os padrões Fariseus. Porque isso? 

Mack explica isso afirmando que o cenário mais adequado indica que alguns integrantes do povo de Jesus continuaram a se considerar como judeus mesmo estando inteiramente ligados no movimento de Jesus. Pode-se imaginar a disseminação do movimento de Jesus nas regiões de Tiro e Sidom onde uma das estórias de pronunciamento de Marcos (Mar 7:24-30) foi elaborada. Alguns judeus atraídos pelo movimento continuavam a participar da vida da sinagoga ou pertenciam a famílias que continuavam. Naturalmente surgiram conflitos com as próprias famílias e com os líderes das sinagogas à respeito da lealdade às tradições judaicas. Em certo momento as diferenças relativas principalmente aos códigos de pureza Fariseu e as "impurezas" do povo de Jesus tornaram-se uma questão crítica e algumas pessoas tiveram que optar entre acompanhar o povo de Jesus ou desistir da participação. Alguns relacionamentos familiares devem ter ficado sob tensão. O grande problema era que ser "impuro" pelos padrões Fariseus era justamente o ponto principal do movimento. 

Embora as considerações de Mack sejam razoáveis ele parece passar ao largo de um aspecto importante. O motivo da resistência judaica aos Romanos era a religião judaica. Igualmente o quadro apresentado no Novo Testamento é aquele de uma instituição agregada ao "status quo". Não há indicação no Novo Testamento de nenhum conflito entre a religião judaica e o poder romano. O objetivo claro dos evangelhos é apresentar a questão revolucionária como sendo entre Jesus é o "Establishment" judeu. O fato de existir uma Instituição Romana contra a qual existiam forças revolucionárias é ocultado de maneira que a instituição contra a qual Jesus se rebelava possa ser representada como inteiramente judia. Existia é verdade, um pequeno partido, os Saduceus, o quais eram colaboracionistas, sustentavam a situação e aceitavam cargos oficiais sob os romanos. O Sumo-sacerdote, propriamente, era Saduceu e é importante que se note, era nomeado pelos romanos. Como membro de uma minoria colaboracionista, ele era encarado com suspeito pela grande massa da nação. A autoridade religiosa, no entanto, não permanecia com os sacerdotes mas com um corpo completamente diferente de pessoas, denominados Rabinos, os líderes dos Fariseus. Assim os evangelhos falham em não mostrar que com relação ao povo a verdadeita instituição era o partido dos Fariseus que sem posição de destaque político, cujos líderes jamais receberam reconhecimento pelos romanos, constituía-se na primeira e última resistência contra os romanos. A imagem apresentada nos evangelhos sobre os Fariseus, colocando-os como interessados apenas em salvaguardar suas posições é inteiramente equivocada. 

Assim Jesus tornou-se o mestre-fundador de um movimento que trabalhou sua autodefinição no debate contra os ensinamentos dos Fariseus. Isto nos dá um quadro completamente diferente daquele mostrado pela comunidade Q, ou como veremos, o povo de Tomé, a Congregação de Israel e as colunas de Jerusalém. Um grupo particular do movimento de Jesus investiu inocente e fortemente na idéia de pensar-se como apto aos dois padrões, judaico e de Jesus. Este grupo, e isto é uma questão da máxima relevância, voltou-se para as práticas das escolas de tradição helenistas, quanto a atribuir todas as razões para pensar da maneira que pensavam, ao seu fundador. Eles não desenvolveram nenhuma teoria ou mito da autoridade de Jesus como homem dvino, salvador ou mártir da nova causa. Também, não desenvolveram nenhuma visão apocalíptica de julgamento final ao final dos tempos. O que fizeram, foi colocar Jesus no papel de legislador, tal qual os escribas dos Fariseus, mas então desenvolveram sua habilidade retórica de maneira a superar os escribas em seu próprio jogo. 

Um instrumento excepcional surgiu quando este grupo decidiu usar as anedotas de Jesus para registrar seu debate com os escribas dos Fariseus. Quando se prepara uma chreiai os argumentos são os de quem prepara não os dos protagonistas da chreiai . Assim que o povo de Jesus desenvolveu as chreiai com argumentos mais elaborados eles preferiram não tomar os créditos pelos argumentos que encontraram. Ao invés, como na tradição grega de atribuição de novos ensinamentos ao fundador da escola, eles deixaram Jesus receber os créditos não só pelas chreiai como pelos argumentos em seu favor. Isto resultou em dar a Jesus dois pronunciamentos em cada chreiai elaborada, com a última afirmação, invariavelmente, marcando um pronunciamento da correção de seus pontos de vista. Assim, ao final da chreiai sobre trabalho no sábado, Jesus diz, "O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". Assim, intencionalmente ou não, a Escola de Jesus produziu uma auto-referência de autoridade para seu mestre-fundador. 

No princípio esta caracterização de Jesus parece frágil, se não tola, e a lógica da argumentação fraca. Mas, ao combinar-se este estilo de auto-referência de Jesus com outros papéis míticos para Jesus, resulta um símbolo de autoridade extremamente impenetrável . O evangelho de Marcos mostrará isto mais tarde. No meio tempo, como pode a Escola de Jesus tomar seu espaço no mundo, tendo se excluído de uma proeminente definição de judaísmo, definição esta, que aparentemente, foi considerada suficientemente importante, a ponto de se assumir muito seriamente o desafio com os Fariseus? Não sabemos dizer com certeza, pois temos apenas o evangelho de Marcos como a próxima janela para dentro de seu pensamento. Olhando através desta janela parece-nos que a Escola de Jesus passou por um momento de desorientação e ansiedade no processo de se tornar uma seita independente.