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Havendo certo dia os anjos apresentado-se diante do Senhor, e dentre eles Satanás, dirigiu-lhe Javé a palavra, fazendo-o notar seu servo Jó, homem íntegro, afastado do mal e incapaz de blasfemar. "Porventura Jó teme debalde a Deus?", indaga Satanás, considerando que, cercado de bens como vivia, seria mesmo de se esperar que o abastado Jó nunca protestasse. Bastaria que Javé lhe tirasse a família, o conforto, a saúde, e o fiel logo estaria cuspindo em Sua cara. "Pois bem, responde-lhe o Senhor, tudo o que ele tem está em teu poder; somente não estendas tua mão sobre ele próprio". E Satanás dali se foi (Jo 1,12), autorizado que estava a desgraçar o pobre homem.
Escrito em prosa no séc. VI a.C., este é o prólogo do Livro de Jó do Antigo Testamento, de autor desconhecido, cujo estranho enredo vive a inquietar-nos.
O demônio arruina Jó completamente. Incita os sabeus e os caldeus a roubarem-lhe os bois e os camelos e a matarem seus escravos. Num incêndio, queima seu rebanho e seus pastores e, não satisfeito, o anjo maldito levanta um furacão no deserto, levando deste mundo os dez filhos de Jó. Este, resignado, não profere palavra contra Deus.
Satanás volta ter com Javé, mantêm-se os mútuos desafios, e o diabo obtém nova chancela divina para continuar atazanando Jó. Javé, dizendo-se seguro da integridade do representante de seu povo, negocia: "Pois bem, ele está em teu poder, poupa-lhe apenas sua vida". (Jo, 2,6). E Satanás se exalta; faz arder em Jó, corpo inteiro, a lepra maligna. Mesmo assim, Jó não ofende seu Senhor. Mas, desta vez, senta-se para se coçar com um caco de telha, e solta impropérios, amaldiçoando o dia em que nasceu.
Nesse ponto o texto estende-se sob a forma de hinos que confrontam a fala de Jó à de quatro amigos que vêm visitá-lo com intuito de ensinar-lhe a moral, criticá-lo, explicar-lhe o porquê de seus reveses. Sempre há farta amostra de pessoas moralistas deste tipo, e desgraças não faltam para vê-las em serviço.
Elifaz de Teemã diz que só os ímpios são castigados, e Jó lhe responde que seu castigo é bem maior que seus pecados; Baldad de Chua lembra que Javé é sempre justo, com o que concorda Jó, ressalvando que Ele não aflige só os maus; Sofar de Naama fala que Javé é o único sábio a ver toda injustiça, ao que Jó repete ser desproporcional o seu castigo. Sofar replica que a alegria dos ímpios é breve, mas Jó aponta a prosperidade de vários deles. Acusado de arrogância, apela para o testemunho de Deus. Eliú de Buz discursa exaustivamente, diz que só o sofrimento purifica o homem, até ser interrompido pela aparição do próprio Javé, saído de uma tempestade (influência do helenismo, cujo deus maior, Zeus, é Senhor dos Raios e Trovões), pronto a atender a súplica de seu servo inconformado.
Javé defende Jó, proclama sua inocência diante de seus quatro amigos, e repreende-os. Também interroga Jó sobre os mistérios da Criação, abusa de ironias, e cobra do infeliz uma resposta. Pasmo, Jó diz que se arrepende em nome do pó ao qual retornará, pede perdão e se retrata. Javé, sentindo-se vitorioso sobre Satanás, restitui então a Jô, em dobro, todos os seus bens; dá-lhe ainda novos filhos e o faz viver por mais 140 anos, para compensá-lo(!?).
Mas que Deus é este? Ao contrário dos deuses gregos, Javé não tem genealogia. Criador absoluto do Universo, antes Dele, só havia o Nada. Zeus grego, pai da 3a geração divina, ao contrário, tem família: é filho de Cronos, neto de Urano. Por sinal, Zeus nada quer da humanidade; vez por outra fecunda uma mortal, cobra lá seus sacrifícios, joga seus raios sobre este ou aquele que o afronte, mas vive distante dos homens, regendo o mundo por instintos, lá do Olimpo.
Javé, por sua vez, é afetivo. Ciumento, faz da humanidade uma de suas maiores preocupações, decide o que é melhor para seu povo e, via de regra, assume um comportamento neurótico. Sela pelo arco-íris sua aliança com Noé, renova-a com Abrãao, daí com Moisés no monte Sinai, depois com Davi. Vale-se ainda de severos castigos coletivos com os quais tenta corrigir seu povo eleito, que insiste em ser teimoso, haja vista o episódio do Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, e Sua inclinação para matar primogênitos, como lemos em Gênesis 22 e Êxodo 22,29. Qualquer reflexão mais profunda nos prova: Javé não é o Summun Bonum, Ele tem também seu lado perigoso. O temente a Deus, treme de medo diante de sua austeridade!
Estranhamente, a figura de Jó expõe, de modo inequívoco, a frágil condição humana diante de uma inexplicável crueldade divina; complexo dilema sobre o qual se deteve o psiquiatra suíço Carl G. Jung, dedicando-lhe um profundo tratado, escrito aos 76 anos de idade, intitulado Resposta a Jó.
Jó parece ter vivido entre o tempo de Esaú e Moisés. Sua história foi escrita cerca de 200 anos antes dos Provérbios, onde, pela primeira vez, surge a figura de Sofia, a Sabedoria de Javé. Ela é a natureza feminina de Deus, que até então não havia sido sequer mencionada. Javé criou o mundo sem reconhecê-la, mas é a própria Sofia quem nos diz ter estado por toda eternidade ao lado Dele: "O Senhor me criou desde o princípio...ainda não havia abismo quando fui concebida" (Pro 8,22-24).
Sabedoria corresponde no cânon bíblico à Deusa Isthar dos Babilônios que, por sua vez, originou Ísis egípcia, ambas capazes de se apresentar sob a forma de árvore, seja o cedro, o carvalho, a oliveira etc... Gênesis alude a esta face desconhecida de Deus, disfarçando-a na serpente arbórea que corrompe o casal edênico. Isto porque Sofia também pode ser representada pelo Logos, isto é, a razão, a luz de nossas consciências; afinal, a inteligência tem um caráter que a aproxima da Sabedoria. Neste aspecto, podemos entender Satanás (do hebraico; satan: o que se opõe) como aquele que nos oferece o fruto interdito da consciência que, uma vez experimentado, nos separa da natureza absoluta original (Deus e o Paraíso), transformando-nos em indivíduos, com a luz própria do arbítrio e do discernimento. Distante da idéia do mal, seu correspondente clássico é Prometeu, que rouba o fogo de Zeus para entregá-lo aos homens.
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